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Artigo de opinião do Ministro Federal das Relações Externas, Heiko Maas, por ocasião do 30.º aniversário da queda do Muro

Ministro Federal das Relações Externas

Ministro Federal das Relações Externas Heiko Maas, © Thomas Imo/photothek.net

04.11.2019 - Artigo

Onde é que estava quando caiu o Muro de Berlim?

Qualquer europeu que tenha vivido o 9 de novembro de 1989 consegue responder a esta pergunta. Pois no dia em que, há 30 anos, os alemães de Leste e de Oeste se abraçaram chorando de alegria, não foi apenas a divisão da Alemanha que terminou. Com o Muro caiu também a Cortina de Ferro que tinha dividido o nosso continente durante 40 anos.

É por este motivo que os alemães não festejam apenas a queda do Muro a 9 de novembro. Celebramos a coragem com que as pessoas em toda a Europa Central e de Leste conquistaram a liberdade e a democracia. Celebramos uma Europa que – com raras exceções – tem a felicidade de estar unida.

Nós alemães sabemos a quem devemos esta felicidade: às centenas de milhares de alemães de Leste que saíram à rua em nome da liberdade. Mas também aos trabalhadores do estaleiro de Gdansk, aos revolucionários cantantes nos países bálticos, aos húngaros, que foram os primeiros a romper a Cortina de Ferro, aos precursores da Carta 77 em Praga, aos participantes da Manifestação das Velas em Bratislava, aos insurgentes em Timișoara – a todos os homens e mulheres cujo desejo de liberdade varreu muros e arame farpado. E devemo-la aos nossos amigos e aliados no Ocidente, mas também à política de Glasnost e Perestroika de Gorbatchev, que abriu o caminho à reunificação.

A unidade alemã foi também um presente da Europa para a Alemanha – e isto no final de um século em que a Alemanha infligira um sofrimento inimaginável a este continente.

Daqui nasceu para nós uma obrigação: tornar a unificação da Europa uma realidade. Construir uma Europa que faça jus aos valores e sonhos daqueles que lutaram pela liberdade e pela democracia em 1989. É esse o nosso objetivo, inclusivamente no âmbito da presidência da UE que iremos assumir no próximo ano, 30 anos após a reunificação.

A salvação do euro, a discussão interminável sobre o acolhimento e a distribuição de refugiados – tudo isto criou novas divisões na Europa. Com o Brexit, assistimos pela primeira vez à saída de um país da UE. E em muitos países da Europa estão em ascensão aqueles que querem fazer-nos crer que menos Europa é melhor para nós.

Mas uma coisa é clara: nós europeus só conseguiremos manter a nossa posição no mundo se permanecermos unidos. Sozinho, nenhum de nós logrará superar os quatro grandes desafios mundiais – a globalização, as mudanças climáticas, a digitalização e a migração. Apelos isolados de Berlim ou de Paris passam despercebidos em Moscovo, Pequim e, infelizmente, cada vez mais também em Washington. Apenas a voz da Europa tem um peso decisivo. É por este motivo que temos de parar de uma vez por todas com os individualismos nacionais na Europa.

  • Em conjunto, temos de conceber e implementar uma política europeia face a países como a Rússia e a China. Para tal, necessitamos de uma diplomacia europeia mais eficaz e, particularmente, de uma maior flexibilidade da parte de todos nós. Com 27 abordagens nacionais estamos condenados ao fracasso.
  • Em conjunto, temos de trabalhar mais para reduzir os conflitos na nossa vizinhança – em Donbass, na Síria e na Líbia – e para tal temos de fortalecer os instrumentos europeus para a resolução pacífica de conflitos. E precisamos de uma verdadeira união de defesa europeia, em complemento à NATO, que possa agir de forma autónoma quando necessário.
  • Em conjunto, temos de lutar pela preservação da ordem internacional e de nos tornar a peça central de uma aliança em prol do multilateralismo, pois também a nossa paz na Europa depende da preservação desta ordem.
  • Em conjunto, temos de assumir um papel de liderança na proteção do clima. São necessárias decisões políticas corajosas e esforços genuínos a nível da sociedade para que o nosso continente se torne climaticamente neutro até meados deste século. Se falharmos este objetivo, é o futuro dos nossos filhos que está em risco.
  • Em conjunto, temos de fortalecer a economia europeia para não sermos esmigalhados na disputa comercial e na concorrência tecnológica entre a China e os EUA. O próximo orçamento da UE tem assim de ser um orçamento orientado para o futuro, que invista especificamente em investigação, alta tecnologia e digitalização. Apenas assim conseguiremos garantir a prosperidade da Europa.
  • Em conjunto, temos de velar para que a nossa União também se mantenha coesa a nível interno. A força da Europa advém da segurança social que proporciona aos seus cidadãos, da harmonia não só entre os nossos padrões económicos mas também entre os nossos padrões sociais. E advém do nosso respeito pelo primado do direito e da sua implementação prática.

O outono de 1989 mostrou aquilo de que nós europeus somos capazes quando pensamos e agimos para além das nossas fronteiras nacionais. Mostrou a força que temos em nós quando defendemos a liberdade e a democracia, o direito e a justiça: uma força que supera muros e fronteiras. Uma força capaz de impor os nossos valores e interesses num mundo cada vez mais autoritário.

Este mundo precisa da coragem da Europa de lutar pela liberdade, a coragem de 1989. Tenhamos portanto a ousadia de sermos europeus e de agirmos, sem reservas, de forma europeia!

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